domingo, novembro 06, 2005

Do que se passa em França e entre nós....

Aqui na quieta Europa, da Europa social, da Europa da integração, da Europa não conflitual assumimos que estávamos ao abrigo de rebeliões urbanas de carácter étnico. Considerámos que estas rebeliões eram um exlusivo da América e nomeadamente dos EUA, a rebelião de L.A. , a quase rebelião dos afro-americanos após o tratamento dado a estes em New Orleans eram um facto reassegurador de que um Estado não integrador, não social, estaria sempre às portas da auto-destruição.

Mas o que se passa em França há mais de uma semana demonstra que não é assim. Um estado social está sobre ataque de uma margem da sociedade que os Franceses, mais do que discriminar, decidiram que, após os terem alojado em condomínios sociais (mas que são guetos), que após lhes darem os mais variados subsídios, que após lhes terem dado a nacionalidade Francesa, decidiram ignorar. O ignorar dessa margem da sociedade traduz-se por comportamentos racistas e xenófobos que todos nós temos: não lhes dar emprego, chamar árabe ou negro como se isso fosse um insulto, dar-lhes entrada nas Universidades não pelo mérito mas para preencher cotas e recusar-lhes após isso um trabalho e salário igual aos colegas de curso. É contra isso que essa margem se está a revoltar, é contra isso que a mesma margem discriminada se revolta nos EUA. Não é porque o estado é mais ou menos social que as revoltas existem, mas sim porque a educação cívica das sociedades vs. as minorias é cheia de preconceitos e a globalização e a precariedade dos empregos só vem acentuar as fissuras sociais existentes.
Daí que o tratamento dado em Portugal ao problema francês, o quase ignorar dos intelectublogues ou quando o fazem considerar que é um problema deles é uma forma displicente e perigosa de ver os acontecimentos.
Aconteceu em França, mas as mesmas forças de tensão social estão também presentes em Portugal. O mesmo tratamento paternal ou discriminatório, as mesmas urbes sociais, os mesmos preconceitos, em suma as mesmas fissuras sociais. Se não olharmos para Paris como um exemplo do que pode suceder em Lisboa, amanhã, em vez de vermos um carro a arder com a Torre Eiffel como pano de fundo, poderemos bem ver uma outra torre como pano de fundo: a de Belém.


PS: Neste momento a pergunta importante a um candidato a PR em Portugal era, como geria o processo se acontecesse o mesmo em Lisboa? Será que alguém terá coragem de fazer a pergunta e, mais importante, algum candidato terá a coragem de responder?

2 comentários:

Carlos Esperança disse...

Eis uma excelente questão para colocar aos candidatos.

Duvido que surja. Infelizmente.

Anónimo disse...

www.jscoimbra.blogspot.com